O nascimento de gêmeos, de trigêmeos, virou notícia freqüente nas famílias, nas revistas e jornais. Isto porque descobertas em biologia celular e, mais especificamente, um vasto número de inovações tecnológicas e científicas extraordinárias em medicina reprodutiva têm alterado radicalmente as opções para o tratamento da infertilidade nos últimos anos, possibilitando a obtenção de gravidez para aqueles casais considerados previamente incapazes de gerar seus próprios filhos.
Ocorre, no entanto, um desvirtuamento no emprego destas técnicas de reprodução assistida, uma vez que elas vêm sendo utilizadas em grande escala, com desprezo pelos tratamentos clínicos ou cirúrgicos capazes de restaurar a fertilidade. Estas técnicas de reprodução assistida são recursos últimos, após se mostrarem esgotadas as possibilidades de tratamento da infertilidade.
Quem faz este alerta é o dr. Jorge Hallak, médico urologista, diretor executivo do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e responsável pela seção de reprodução humana, infertilidade e função sexual da Sociedade Brasileira de Cancerologia, que teve uma das pesquisas desenvolvidas com sua equipe, sobre fertilidade x poluição, destacada pela Nature no último mês de outubro. Ele é uma voz isolada neste meio.
“A ciência caminhou bastante nesta área e existem procedimentos hoje capazes de, realmente, solucionar vários problemas de infertilidade. Mas muitas vezes se dá um tiro de canhão para atingir uma mosca, ou seja, ataca-se um problema que seria resolvido de forma mais simples e saudável com um procedimento que oferece maior risco e implica, muitas vezes, também em maiores custos”, diz ele. E isto acontece porque está havendo descuido com os diagnósticos.
A infertilidade pode ser resultante de um problema simples, facilmente resolvível, mas pode também ter origem mais complexa. Ela tem por trás, muitas vezes, problemas mais graves: um câncer, um distúrbio neurológico, uma síndrome. Com a não realização de um diagnóstico sobre suas causas, e a adoção, direta, de alguma técnica de reprodução assistida, pode-se estar gerando crianças com problemas graves.
O dr. Jorge Hallak registra a ocorrência de mais abortos, mais casos de má formação congênita e mais doenças genéticas nas gestações originadas de reprodução assistida. Ressalta, também, que as crianças nascidas de reprodução assistida, gravidez múltipla, têm seu desenvolvimento mais lento, apresentando mais dificuldades escolares.
Pais e mães ansiosos por procriar não são alertados a este respeito porque, como diz o dr. Jorge Hallak, “aqui no Brasil atende-se o imaginário das pessoas nesta área”. Nos Estados Unidos, os congressos das sociedades de reprodução assistida tratam dos problemas que envolvem esta especialidade.
O ICSI – Injeção Intra-Citoplasmática de Espermatozóides – técnica em que um único espermatozóide é injetado no citoplasma de um óvulo, indicado apenas para casos de fator masculino severo, quando a quantidade de espermatozóides é muito baixa ou ausente na ejaculação, vem sendo aplicado no Brasil de forma desregrada, diz o dr. Jorge Hallak. Nos países desenvolvidos, esta técnica entra em 30% a 40% dos procedimentos de reprodução assistida. No Brasil, em 90%. Este é um dado que, segundo ele, confirma a falta de seriedade nos diagnósticos no Brasil.
“O ICSI representa um avanço. É uma tecnologia para ser utilizada, mas apenas quando couber realmente a indicação e observando-se os guias médicos de conduta internacionais, que estabelecem esses protocolos”, afirma.